Tomates Verdes Fritos

Posted: quinta-feira, 4 de março de 2010 by Marcelo Augusto in
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Tomates Verdes e Fritos, dirigido por Jon Avnet, reproduz o que há de melhor na instrumentalização da fábula social como arma do Cinema Moderno. O filme estrutura uma relação entre a sociedade da pequena cidade do Alabama e demonstra como os homens podem interferir no modo como os cidadãos se comunicam e lidam com os outros. A trama nos mostra, numa verve encantadora, duas histórias diferentes que se afetam diretamente: o drama de Evelyn Couch, representada pela admirável Kathy Bates, que se compoe numa mulher com dificuldades para ser a protagonista de sua própria vida e o drama de Idgie Threadgood e Ruth Jamison que enfrentam a pacata sociedade em que vivem e criam um novo modo de conviver com os outros. O que separa essas duas histórias é os mais de cinquenta anos que se passam entre elas, atribuindo a obra o tom certo de mágica.

A fábula ganha vida na estruturação de como esses dois dramas colidem: através da narração de Ninny Threadgood, uma idosa senhora, magicamente interpretada por Jessica Tandy, a história é passada de uma geração para a outra, onde Evelyn Couch escuta as narrativas das vidas de Idgie e Ruth e passa a repensar sua própria vida. Vale ressaltar que o modo como Ninny conta as aventuras das duas damas do começo do século XX , de um modo aconchegante e íntimo, é o grande responsável pela nossa afinidade instântanea com os relatos.




Dentro da história de Idgie e Ruth, existem fatores que revelam uma sociedade unida e ao mesmo tempo, uma sociedade que está passando por mudanças éticas naturais com o decorrer dos anos. Os valores vão mudando e a genialidade dessas duas garotas acabam por modernizar a sociedade e ganha um sentido social, quando as suas lutas passam a dar aos negros espaço entre os cidadãos. Como não é difícil de imaginar, lutar por uma sociedade mais digna acaba atraindo divergências, e é exatamente nesse ponto que a história irá se circundear. O preconceito é ainda latente entre alguns cidadãos, e a luta integralista das meninas acabará as colocando em risco de vida, ainda mais com a presença da Ku Klux Kan.




A obra, apesar de expor fatores ideologicos e possuir uma crítica presente acerca de como a vila irá se adaptar aos ideiais revolucionários de Idgie e Ruth, usa como essência humanizar as relações entre os personagens, explorar minunciosamente a beleza e a força da amizade e ressaltar a incrivel capacidade que temos de alterar a vida dos outros. Esse fator é bastante visível na relação entre Ruth e Idgie, que irá percorrer a história toda e será através dessa dialética que a trama irá se proceder. As duas passam a desenvolver valores novos e mostram que a união faz a força e justamente por irem de encontro com vários juízos de valores reacionários, acabam por se vulneralizar aos riscos. Essa mesma essência está presente, anos depois, na relação entre Ninny, que conta a história, e Evelyn, que a escuta e percebe que Idgie e Ruth souberam como tomar atitudes e se valorizaram, coisas que andam em falta na sua vida.

A idéia central do filme é a de mostrar como uma história de vida pode alterar outras histórias de vida e como a força entre a amizade pode ser tão verdadeira a ponto de revelar em nós o que nos há de melhor. A história cativa e traz o que é mais digno do ser humano: a honestidade de avaliar os seus atos e de refletir sobre a sua vida. A obra abusa de fatores positivos cinematográficos, como a trilha sonora adequada e extasiante, e o figurino correto e profissional. As técnicas de filmagem são competentes e o roteiro é incrivelmente delicioso de se acompanhar.

Mary Stuart Masterson, que representa Idgie, produz um trabalho encantador e acrescenta a sua personagem a  nuance certa de uma pessoa forte, revolucionária e apaixonada pelas pessoas. O filme é basicamente isso: pessoas que amam outras pessoas, pessoas que lutam por outras pessoas. A mágica social textualiza cada cena e cria um contexto capaz de expressar a sensação certa. Ruth, representada por Mary-Louise Parker, é o alicerce do elenco que conclui o a mensagem da obra: a pessoa que precisa ser amada. Mary-Louise é, talvez, a atriz mais profissional do elenco relacionado a trama contada por Ninny. Ela é capaz de traduzir em seu olhar a emoção certa que a cena pede.




No outro núcleo do filme, Evelyn Couch resolve aplicar em sua vida certas filosofias de Idgie, e assim, passa a se valorizar mais e ganhar voz própria. A magia das relações entre as pessoas é bem expressada dessa forma e reproduz o aspecto necessário para que a história ganhe um sentido mais humano e interligado. Kathy Bates está num dos seus melhores momentos e sua personagem possui todos os elementos que Bates é profissional em expressar. Ninny Threadgood é o canal entre a história de Idgie e Ruth com a história de Evelyn, e por isso, ganha uma importância essencial para que a história se conduza.

A vilania do filme não é o ponto principal da obra, mas é necessária para que a história proceda. Além da ignorância preconceituosa de certos habitantes, há um personagem em especial que caracteriza todos os valores não pregados por Ruth e Idgie: Frank. Ele é o ex marido de Ruth, que além de praticar o racismo, se vangloria de bater em Ruth e de, inclusive, matar sua mãe. O personagem é responsável por provocar ás moças momentos de dor e de raiva e isso, acabará, as levando ao seus extremos.





Existe um complexo julgamentos de valores durante o filme todo, mas a obra jamais perde seus aspectos irreverentes. A irreverência é a segunda alma do filme, sendo a primeira a amizade. O roteiro nos permite rir, ter raiva, se apaixonar e por isso, consagra a sua produção como uma das melhores do cinema. Tomates Verdes e Fritos é uma tradução da humanidade em todas as suas facetas e explora o universo mais íntimo do ser humano: ele próprio. A relação temporal entre gerações acaba ganhando um sentido mais literal e surpreendente ao fim, quando enxergamos uma relação intrigante entre Evelyn e Ninny com Ruth e Idgie. O filme merece ser visto com o olhar de um apaixonado e merece também ser lembrado como uma obra forte em seu contexto e ao mesmo tempo frágil, por narrar uma história repleta de subjetividades encantadoras. Com certeza, uma verdadeira menina dos olhos do universo cinematográfico.

11 comentários:

  1. Anônimo says:

    Este filme maravilhoso, um dos 40 ou 50 melhores filmes que vi na vida, tem um único problema: foi lançado nos cinemas com o título em português de "Tomates Verdes Fritos". Depois de lançado em DVD, em uma das capas novas, veio grafado com o errôneo "e" no meio do título, "Tomates Verdes e Fritos". Prefiro o nome inicial, o qual era grafado nos cartazes da época.

    Veja uma capa antiga (com resolução ruim, infelizmente não acho os cartazes em português daquele tempo na rede):
    http://www.sensibilidadeesabor.com.br/imagens/TOMATES%20VERDES%20FRITOS%20CARTAZ%202.jpg

    Grande abraço
    Tommy
    http://cinemagia.wordpress.com

  1. Verdade, lembro bem do título sem o "e". Também gosto mais. O filme é maravilhoso e o destaque fica mesmo por conta de Jessica Tandy, adoro essa atriz.

  1. Hugo says:

    Este longa é de uma sensibilidade extrema e o elenco é muito bom, tendo com maior destaque Jessica Tandy.
    Ela foi uma ótima atriz que ficou famosa apenas quando já era um senhora, em longas como "Conduzindo Miss Daysi" e "Coccon".

    Abraço

  1. Olha você, achei que o blog estava condenado e nem teria mais atualização. Por que você some tanto, moço? Some aqui e dos blogs amigos, sempre. rs

    Achei que teria mudanças visuais aqui, segundo seu último post. rs

    Bom, parabéns por escrever bem sobre um filme precioso - e que, pessoalmente, marcou minha infância.

    Lembro de revê-lo todo dia, praticamente...por volta de 1996...

    Esse filme ainda é mágico, por anos foi meu filme-de-cabeceira...não é mais, mas se mantém inesquecível...

    Abraço

  1. Mariana says:

    Primeiramente, a combinação de palavras está muito bem colocada.Mais uma característica que encontro em você,que me admira,seu gosto e sua capacidade com os textos.Está no caminho certo, posso garantir.
    Eu,particularmente, não assisti ao filme,porém, após ter concluído essa leitura, me vejo entusiasmada a compartilhar dessa história que descreveu tão bem.

    A partir de agora, serei assídua leitora de seu blog, com o carinho de uma amiga e com o olhar de uma futura profissional da palavra.

  1. Wally says:

    Belíssimo texto. Parabéns. Acendeu uma grandiosa vontade de ver este filme, ainda inédito para mim.

  1. Airton says:

    opa legal o post...esse filme é irreverente sim como tu disse...

    aliais o post de hoje la no blog fala sobre irreverencia
    passa la
    heheh

    http://publicandobr.blogspot.com/2010/03/devassamas-nem-tanto.html

  1. claro, entre no msn que combinamos!

  1. Weiner says:

    Um filme no mínimo doce, para não dizer inesquecível. Trata de diversos assuntos escandalosos com a leveza e a sabedoria dos grandes filmes da era de ouro de Hollywood - ou seja, ataca seu alvo sem parecer pedante ou apelativo. Sem contar na celebração da amizade, que não vê fronteiras de cor, sexo, sexualidade, condição social... Espetaculares atuações do quarteto de atrizes centrais, um filme que tenho na coleção e prezo muito que as pessoas assistam!

  1. Neuma Cardoso says:

    Esse filme é maravilhoso, não digo que apenas foi um filme maravilhoso porque estar presente na vida e tambem na historia de cada um! Muitas pessoas em algum momento de sua vida se indentificou com algumas das cenas do filme e encontrou também suas respostas. Não é apenas um filme e sim uma obra prima.