Amarcord

Posted: sábado, 10 de abril de 2010 by Marcelo Augusto in
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Amarcord é, talvez, uma das obras mais poéticas e líricas do Cinema dos anos 70, perpetuando-se como um novo Cinema, onde a Arte explora o fértil universo da imaginação e exponencia o que há de melhor em recordar o nosso passado. Fellini se aprofundou, permeado pela verve saudocista, na identidade de uma pequena cidade italiana, onde a vivacidade e musicalidade de seus habitantes a consolidam como um verdadeiro baú de emoções, que traduzem uma cultura italiana própria,que seria esquecida pelo tempo e pelo espaço, se não fosse, como o próprio título traduz, a linda capacidade humana de se recordar.

O argumento do filme retrata uma sociedade interiorana da Itália sem se comprometer com a veracidade limitrófa entre a realidade e a imaginação. A idéia central do filme ressalta um povoado característico e se desenvolve de uma forma arrítmica, onde diversas técnicas de filmagem se misturam num frenesi de retratações. Fellini se preoucupou em revelar uma diversidade cultural através de um olhar anacrônico, onde o que se é mostrado não representa, necessariamente os fatos fidedignos dos anos 30 mas representam como as pessoas enxergavam esses fatos, permitindo-se assim liberdades de expressões distintas, ou seja, os fatos se misturavam as diversas percepções atribuídas à eles. Percebemos tal interação através de metáforas genuinas fellinianas, como o exagero, a abstração, a nebulosidade, a sexualidade e diversos outros signos próprios da imaginação humana.

Fellini desenvolve uma linha cronológica exata - a retratação de um ano importante para aquele povoado. No entanto, o percusso escolhido para representá-lo não se compõe de forma padrão e ritmíca, onde os fatos não possuem conexões com outros fatos, a não ser os personagens que os dividem. O ano representado significa um pequeno passo do reconhecimento público italiano para aquela comunidade carente de atenção, que precisa lidar com os marasmos de suas fronteiras, perdidos por uma imensidão esquecida. A força daquelas pessoas se resumiam em acreditar em sua comunidade e se iludirem numa falsa importância que ela possuía. A forma como Fellini as retrata é de uma destreza acadêmica, pois consegue conjulgar simples valores para uma sociedade que vive do acreditar. O ano retratado os aproxima de uma identidade cultural e denota uma realidade histórica daquela época: a visita de Mussolini, a passagem do Transatlântico entre outros.




A comunidade possui personagens que constroem, conectivamente, uma história de uma cultura, e Fellini aborda essa questão de forma a esteriotipar beneficamente seus personagens. O prisma abordado por ele abusa de uma visão mais ingenua dos fatos, desmistificando um pouco mais aquela sociedade e calvagando por uma outra verve cinematográfica: a qual a sociedade é representada pelos sentimentos daqueles cidadãos, em especial, de Titto, um jovem italiano. O filme se assemelha a uma comédia colorida, onde os personagens permitem que o espectador sinta-se entre eles, vivendo aqueles fatos.

Os personagens são os verdadeiros olhos de ouro da trama e atribuem para a obra a sensação de calor, como se aqueles personagens já houvessem cruzado nossas vidas, numa realidade distante e quase esquecida. Sentimos as nuances simples daquele povo, aprendemos a rir com eles, a ansear com suas necessidades, nos consideramos parte daquela comunidade frágil que se constroem de valores imediatistas, mas que usam do amor para enfrentar as adversidades que passam. Fellini conota uma abstrariedade dos fatos, das sensações e nos faz entender aquela sociedade não na posição de um analítico, mas na posição de um interativo, de um participativo.

O Cinema Felliniano, principalmente representado por Amarcord, nos conduz à um novo mundo do Cinema, onde as regras de uma uniformidade cinematografica não existe, por que reduz o seu argumento. Os personagens de Fellini falam diretamente conosco, espectadores, e as lembranças nos abraçam, nos faz nos emocion armos juntos, como se elas existissem em nós e não neles.

Não há como abordar essa obra sem falar do como a cultura italiano explode na tela, de uma forma intensa, presente. A Itália é o plano de fundo da obra e isso não é perdido de vista nenhum minuto da trama. O corpo do filme abusa dessa qualidade e o torna exclusivamente italiano, soando ser um filme para os italianos, o que, na verdade, não é. Fellini objetiva mostrar ao mundo o que era ser italiano no começo do século XX e consegue, de pura excelência. A trilha sonora do filme é radicalmente fantástica, uma pequena perfeição dentro de outra perfeição. O contexto de soundtrack não é o atual, que significa acompanhar o filme dando intensidades distintas à diversas cenas, mas é um contexto diferente, onde ele não procura dar uma intensidade técnica para obra, mas pretende ritmizar aquelas cenas, nos familiarizar com aquela cultura, se comportando de forma regular e extremamente eficaz, dando uma sensação de constituinte ao filme e não de tecnicismo.

Amarcord precisa ser lidado como um filme eterno, onde a beleza de seu argumento não esmorece com o tempo e passa a representar ainda melhor ao que se propoem. Fellini quis transmitir a idéia de que a cultura não morre no momento em que os seus filhos desaparecem no tempo, mas morre quando ficamos indiferentes a ela, e a esquecemos. O filme felliniano é uma ópera do ser humano coletivo e abraça valores já perdidos na sociedade, que deveriam ser resgatados e vistos como uma nova oportunidade para se recriar.


15 comentários:

  1. Não digo que seja a obra-prima de Fellini, porque gosto muito da viagem cinematográfica de 8 e meio, mas Amarcord, como você falou é um filme eterno, sensível e necessário.

  1. Anônimo says:

    Sem dúvida um dos grandes filmes de Fellini (e, infelizmente, um dos poucos dele que assisti).

    Obrigado pela visita ao Cinema é Magia e pelo comentário, e volte sempre.

    Um abraço
    Tommy
    http://cinemagia.wordpress.com

  1. O meu filme preferido de Federico Fellini. Um devaneio hilariante e de puro cinema.

    Obra-prima. 5/5

    Cumps.
    Roberto Simões
    » CINEROAD - A Estrada do Cinema «

  1. Olá Marcelo, primeiramente parabéns pelo texto. Infelizmente, não sou um profundo conhecedor da obra de Fellini, até por isto nem tenho q comentar sobre este filme. Mas seu texto me fez brotar uma vontade de buscar conhecer um pouco mais deste cultuado diretor. Grande abraço.

    Visitem
    www.cinemaniac2008.blogspot.com

  1. Também acho que a clara força de Fellini está em 8 e meio, mas é óbvio que Amacord é uma obra clássica e tem um significado incontestável na história do cinema.

    Abraços!

  1. Acredita que eu ainda não vi esse do Fellini. Mas dele, já espero essa grandiosidade e lirismo descrito por vc nessa apaixonada crítica.
    ABS

  1. Airton says:

    opa apesar de nao acompanhar muito esse diretor a fotografia desse filme parece chamar a atençao
    heheh
    post novo no blog

    sobre frank sinatra

  1. Fellini é um gênio. Esse conheço, mas ainda não vi. Comprarei de uns camelôs nerds que ficam na Augista (São Paulo). Amo filmes Cults.

    abç
    Pobresponja

  1. O meu filme preferido de Fellini dificilmente será outro que não Noites de Cabíria, mas vejo Amarcord como um filme indispensável na vivência cinéfila de qualquer ser humano. Demais!!!

    Cultura? O lugar é aqui:
    http://culturaexmachina.blogspot.com

  1. Nossa, lendo seu texto foi me dando uma vontade incontrolável de vê esse filme. Vou procurá-lo urgentemente.

  1. Wally says:

    Peço perdão Fellini, pois eu pequei! Pois é, sou um pecador felliniano. Não vi nada dele até hoje. Mas isso vai mudar...

  1. Não conheço muito bem o cinema do diretor, mas "Amarcord" é sensacional, talvez até uma obra-prima!

  1. Oi Marcelo,

    Parabéns, estou te prestigiando com o selo Prêmio Dardos. Vai lá no meu blog pegar o seu selinho carinhoso da MaDame Lumière.

    http://madamelumiere.blogspot.com/2010/05/cacador-de-recompensa-bounty-hunter.html

    Beijo!

    MaDameLumière

  1. Fellini arrebenta! E "Amarcord" é um dos seus melhores exemplares. Adoro a fase surrealista deste diretor. "8 e Meio" é uma das maiores aventuras cinematográficas que já enfrentei =)

    grande abraço!